
Com este artigo encerramos a série iniciada na Semana da Consciência Negra, quando publicamos “Como quatro negros de Jacobina viraram alvo da Inquisição” e, por causa do interesse dos leitores, decidimos recontar individualmente a história de cada um dos acusados. Depois de revisitar as vidas de José Martins, Mateus Pereira Machado e Luiz Pereira de Almeida, chegamos ao último deles: João da Silva, conhecido como “o Curto”, africano de Luanda que, arrancado da sua rotina no sertão baiano, acabou nos porões do Santo Ofício em Lisboa.
João “o Curto” apareceu nos autos movidos pelo vigário João Mendes em 1745, quando começaram as denúncias sobre bolsas de mandinga circulando entre escravos e forros da freguesia de Jacobina. Era descrito como africano de Luanda, escravo, e, segundo testemunhas, associado aos outros acusados por participar de rezas, amuletos e práticas consideradas suspeitas pelas autoridades eclesiásticas. Embora os depoimentos contra ele fossem menos detalhados do que os registrados contra José Martins e Mateus, seu nome surgia sempre no mesmo contexto: o grupo de negros do Riachão que carregava patuás e praticava mandingas. Isso bastou para que fosse incluído no inquérito.
Preso na cadeia da vila com os demais, João Curto compartilhou a mesma sequência dramática que marcaria a vida de seus companheiros. Como eles, conseguiu fugir da pequena prisão de Jacobina e permaneceu foragido por meses no sertão. Mas a fuga teria vida curta. Em 1750, quando a Inquisição de Lisboa enviou ordem direta exigindo a captura dos “mandingueiros de Jacobina”, João foi encontrado novamente e remetido à cadeia. Documentos mencionam que, ao ser recapturado, foi colocado outra vez na prisão ao lado de Luiz — evidência clara de sua participação integral no processo que se seguiria.
A travessia para Lisboa, feita em navio que levava escravos acorrentados e réus de toda a colônia, marcou o início do suplício inquisitorial de João da Silva. Chegando em janeiro de 1752, foi imediatamente isolado em cela individual, como previa o regulamento do Santo Ofício. Ali enfrentou interrogatórios, inspeções minuciosas e tentativas de obter confissões sobre feitiçarias, pactos malignos ou usos da bolsa de mandinga. Embora os registros sobre suas declarações sejam mais escassos, sabe-se que repetiu a mesma defesa apresentada pelos outros réus: não havia pacto, apenas práticas tradicionais de proteção, comuns entre africanos de diferentes nações que viviam na Bahia setecentista.
Seguindo o curso inevitável dos processos inquisitoriais, João Curto também enfrentou tortura. Como os demais, foi submetido ao potro, onde correias e torniquetes pressionavam suas articulações até o limite. A lógica do Santo Ofício era clara: o sofrimento corporal era visto como instrumento legítimo para “purificar” a verdade. João resistiu, negou pactos, e, como seus companheiros, teve sua culpa presumida não apenas pelas práticas culturais que carregava, mas por sua própria origem africana — vista, no olhar da época, como suspeita em si.
Seu destino foi selado no Auto de Fé de Évora, em 20 de junho de 1756, o mesmo que julgou os outros três jacobinenses. Diante de autoridades civis e eclesiásticas, foi publicamente humilhado, açoitado e condenado ao degredo em terras frias e distantes do norte de Portugal. A partir desse ponto, o silêncio domina os arquivos: nada mais se sabe sobre sua vida após o exílio. Não há registro de retorno ao Brasil, nem confirmação de morte no Reino — apenas o vestígio de um africano arrancado de Luanda, levado ao sertão da Bahia e, por fim, esmagado pela maior máquina religiosa repressiva da época.
Com João da Silva, concluímos a saga dos quatro negros de Jacobina que, por carregarem amuletos de proteção, foram transformados em réus do Santo Ofício. Suas histórias revelam não apenas o alcance da Inquisição, mas também a resistência silenciosa de práticas africanas que sobreviveram apesar da violência, do exílio e do esquecimento. Hoje, recuperá-las é uma forma de devolver humanidade e memória a aqueles que, no século XVIII, tiveram suas vidas reduzidas a números de processo e páginas de acusação.
Para a elaboração deste artigo, utilizei como principal referência o estudo “Quatro mandigueiros do sertão de Jacobina nas garras da Inquisição”, pesquisa conduzida pelo antropólogo e historiador Luiz Mott.
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