
*Por João Batista Ferreira
Na história de Jacobina, poucos personagens simbolizam com tanta força os embates políticos que antecederam e sucederam o golpe militar de 1964 quanto o advogado e professor Ivanilton Costa Santos. Natural do município vizinho de Miguel Calmon, era filho de João Teixeira dos Santos e Pureza Odália Costa Santos. À época dos acontecimentos que marcariam sua trajetória política, residia na Praça Rio Branco, no centro de Jacobina, de onde acompanhava de perto a intensa movimentação política e social da cidade.
Respeitado por sua atuação no meio jurídico e na educação, Ivanilton tornou-se uma das principais lideranças do pensamento nacionalista na região, defendendo reformas sociais e participando da mobilização política que ganhava força no interior baiano durante o governo de João Goulart. Em uma época marcada pela polarização ideológica, sua atuação logo despertaria a atenção das autoridades militares.
Sua projeção política já havia se consolidado antes mesmo do golpe de 1964. Em 1962, foi candidato à Prefeitura de Jacobina, sendo derrotado por uma pequena diferença de votos em uma eleição cujo resultado foi amplamente contestado por denúncias e suspeitas de fraudes eleitorais. Aquele episódio teria grande repercussão na política local e merece uma abordagem específica, que será tema de um artigo próprio desta série.
Com a instalação do regime militar, Ivanilton passou a ser considerado pelos órgãos de repressão o principal “agente subversivo” de Jacobina. Os documentos do Inquérito Policial-Militar nº 27/64 revelam que seu nome aparece como figura central das investigações conduzidas pelo Exército na cidade. Advogado, professor e incentivador de grupos de orientação nacionalista inspirados nas ideias de Leonel Brizola, foi acusado de difundir entre estudantes e trabalhadores propostas consideradas incompatíveis com a nova ordem política imposta após o golpe. Embora as acusações estivessem baseadas, em grande parte, em depoimentos e interpretações ideológicas, Ivanilton foi submetido a sucessivos interrogatórios e passou a viver sob intensa vigilância.
Décadas mais tarde, a própria história trataria de revisar aquele julgamento. Em 2010, após pedido apresentado por sua família à Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Ivanilton Costa Santos recebeu, postumamente, a condição de anistiado político. O Estado brasileiro reconheceu oficialmente que ele havia sido perseguido por motivos políticos durante a ditadura, formalizando um pedido público de desculpas pelos abusos cometidos naquele período. O reconhecimento representou não apenas a reparação de uma injustiça individual, mas também a reafirmação da importância de preservar a memória daqueles que sofreram perseguições em defesa de suas convicções.
Mais de seis décadas depois, a trajetória de Ivanilton Costa Santos permanece como uma das páginas mais marcantes da história política de Jacobina. Sua atuação ajuda a compreender como os acontecimentos nacionais repercutiram no interior da Bahia e como cidadãos comuns foram transformados em alvos da repressão por defenderem ideias e projetos de país. Resgatar essa memória é também compreender um período decisivo da democracia brasileira.
Esta reportagem inaugura uma série especial sobre o período do regime militar em Jacobina. Nas próximas publicações, outros personagens, documentos e episódios daquela época serão apresentados, contribuindo para reconstruir uma parte importante da história política e social do município.
*João Batista Ferreira é radialista/jornalista
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