Médico é indiciado por homicídio após morte de menino de 3 anos picado por escorpião

A Polícia Civil indiciou por homicídio culposo o médico Augusto Fortunato de Godoi pela morte de Bernardo de Lima Mendes, de 3 anos, após uma picada de escorpião em Conchal (SP), em março deste ano. Segundo o inquérito, protocolos para atendimento de crianças vítimas de escorpionismo não foram seguidos.

A polícia também pediu à Justiça o afastamento cautelar do médico de plantões e serviços de urgência e emergência. O pedido será analisado pelo Ministério Público e pela Justiça.

Segundo o portal G1, o menino Bernardo chegou ao Hospital e Maternidade Madre Vannini às 20h08, menos de cinco minutos depois de ser levado pelos pais. O contato formal com o sistema Cross para transferência ocorreu apenas às 21h59. Segundo a investigação, a demora ultrapassou duas horas e contribuiu para a perda da chamada janela terapêutica do soro antiescorpiônico.

De acordo com os protocolos citados no inquérito, crianças de até 10 anos picadas por escorpião devem ser estabilizadas e transferidas imediatamente para uma unidade de referência com soro, mesmo sem sintomas graves. Na região, a referência indicada era a Santa Casa de Araras. Na ausência do antiveneno, outras unidades de cidades como Capivari, Itirapina, Leme, Limeira, Piracicaba, Pirassununga, Rio Claro e São Pedro tinham o soro.

A investigação afirma que a transferência foi condicionada à liberação de vaga pelo Cross, embora, em situações de emergência, pudesse ser utilizado o sistema de "vaga zero". O médico também poderia ter acionado o Samu para a remoção, alternativa que, segundo a polícia, não foi adotada.

O quadro de Bernardo se agravou. O pai relatou que o menino vomitou cerca de dez vezes em 20 minutos e babava bastante. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, o tratamento em crianças desse grupo deve começar em até 1h30 após a picada.

O garoto sofreu parada cardiorrespiratória e choque cardiogênico. Foi transferido para Araras e recebeu o soro mais de quatro horas após a picada, mas seu quadro já era irreversível. Bernardo morreu no dia seguinte.

"Era um caso de vaga zero, de acionar o Samu e encaminhar essa criança para lá. O médico adotou protocolos que acabou por burocratizar a transferência da criança e o quadro se tornou irreversível. Por conta disso, o médico foi indiciado nesse inquérito policial por homicídio culposo em decorrência da negligência médica que ficou constatada", afirmou o delegado Luís Henrique Lima Pereira.

O pai, Paulo Henrique Mendes Dias, disse ter sentido "alívio" com o indiciamento. "O que a gente sempre quis é que a justiça seja feita e que não aconteça com mais ninguém", afirmou.

A defesa afirmou que o médico tem "plena certeza de sua inocência". O Hospital Madre Vannini disse que o profissional acionou o Ceatox quatro vezes e solicitou a transferência quando houve agravamento. A unidade também afirmou que não pode manter estoque de soro e que uma sindicância interna concluiu que o tempo de atendimento e os protocolos foram adequados.

Fonte: Correio 24 Horas

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