Escolher o caminho mais fácil, adiar uma tarefa importante ou perder a concentração poucos minutos depois de começar uma atividade pode parecer apenas falta de disciplina. Mas, segundo o neurologista e neurocirurgião Paulo Porto de Melo, essas atitudes também podem estar relacionadas à forma como o cérebro é exposto a estímulos, recompensas e interrupções ao longo do dia.
“Não existe decisão sábia em um cérebro desregulado.” A frase é um dos destaques do livro Hiperfoco Natural, lançado nesse mês, em São Paulo. Na obra, o especialista apresenta um protocolo baseado em neurociência para recuperar o foco e fortalecer a capacidade de atenção em uma rotina marcada por notificações, telas e distrações constantes.
De acordo com o autor, o cérebro humano consegue manter o foco de qualidade por cerca de 90 minutos antes de precisar de uma pausa para se recuperar. Em um cotidiano de interrupções sucessivas, porém, essa capacidade pode ser constantemente desafiada. Um levantamento realizado em 2026 pelo Human Clarity Institute com 353 adultos de seis países ajuda a dimensionar essa sensação de sobrecarga. Segundo o estudo, 61% dos participantes disseram se sentir mentalmente saturados pela quantidade de informações digitais, enquanto 55% afirmaram que o excesso de informação pode atrapalhar a concentração.
Embora seja uma pesquisa exploratória, os resultados ajudam a ilustrar um fenômeno cada vez mais presente: a atenção é disputada simultaneamente por notificações, mensagens, redes sociais, tarefas e outras fontes de estímulo. Para Paulo Porto de Melo, a qualidade de uma decisão começa a ser construída muito antes do momento em que a escolha precisa ser feita. Sono, ansiedade, quantidade de distrações, estímulos recebidos e até a energia disponível interferem nesse processo.
“Antes disso, o cérebro já foi influenciado pela qualidade do sono, pelos estímulos recebidos, pelo nível de ansiedade acumulado, pela clareza mental, pela quantidade de distrações e pela energia disponível. Não fomos projetados para uma sequência infinita de atividades e estar disperso atualmente não é uma fraqueza. Significa excesso de mundo”, esclarece.
Com mais de 10 mil cirurgias realizadas, pós-graduação em Harvard e atuação pioneira em neurocirurgia robótica e procedimentos minimamente invasivos, o especialista se dedica também ao estudo da saúde cerebral. Para ele, compreender o funcionamento do cérebro ajuda a explicar uma contradição comum: saber qual seria a melhor escolha e, ainda assim, optar por aquilo que parece mais fácil naquele momento.
Por que o cérebro prefere a rota mais fácil?
Uma das explicações está na maneira como o cérebro reage às recompensas imediatas. No ambiente digital, a sucessão de estímulos rápidos e novidades ativa mecanismos de recompensa relacionados à dopamina, neurotransmissor envolvido na motivação, no desejo e na busca por recompensas.
É nesse cenário que pode surgir um conflito entre aquilo que a pessoa sabe que deveria fazer e aquilo que oferece satisfação ou alívio imediato. Uma tarefa importante pode exigir concentração e esforço, enquanto uma notificação, um vídeo curto ou outra distração oferece uma recompensa rápida. Quando essa dinâmica se repete ao longo do dia, manter a atenção em atividades que não oferecem retorno imediato pode se tornar mais difícil.
“O que desequilibra esse sistema é a combinação de telas, excesso de estímulos, açúcar, sono ruim, ansiedade e ambientes multitarefas. Quando o cérebro vive constantemente exposto a recompensas rápidas e interrupções, fica mais difícil sustentar a atenção e escolher aquilo que exige esforço, mas que é necessário para os objetivos de longo prazo”, explica o neurologista.
O que o córtex pré-frontal tem a ver com isso?
Uma das estruturas importantes nesse processo é o córtex pré-frontal, localizado na região anterior do cérebro. Ele participa de funções executivas como planejamento, organização, definição de prioridades e filtragem de estímulos. Essa área também ajuda o indivíduo a avaliar consequências, controlar impulsos e manter objetivos que exigem esforço ao longo do tempo.
Quando o cérebro está sobrecarregado, explica o especialista, pode surgir uma tendência de buscar a alternativa que exige menos resistência. Assim, um desconforto momentâneo pode parecer mais difícil de enfrentar do que uma recompensa imediata, mesmo quando a primeira opção é mais importante para alcançar um objetivo futuro.
Essa perspectiva também questiona a ideia de que boas escolhas dependem exclusivamente de força de vontade. Segundo Paulo Porto de Melo, alguns sinais de que o cérebro pode estar sobrecarregado aparecem inicialmente de maneira discreta. Entre eles estão irritabilidade, dificuldade para concluir tarefas que antes eram simples e a sensação de estar com a “mente cheia”. Se a rotina permanece inalterada, esse quadro pode evoluir para ansiedade constante, queda de motivação, aumento da procrastinação, sensação de exaustão, pensamento acelerado e alterações de humor.
Como recuperar o foco?
A proposta apresentada pelo neurologista em Hiperfoco Natural parte justamente da ideia de que a dificuldade de concentração não deve ser interpretada simplesmente como uma falha individual. “A falta de foco, tema do livro Hiperfoco Natural, não é uma falha, mas um sinal de que a capacidade do cérebro está sendo excedida”. O livro propõe 21 passos, divididos em três partes principais, com mudanças voltadas à reorganização desse ritmo e à recuperação da capacidade de atenção.
A ideia central é que, em uma rotina na qual o cérebro recebe estímulos praticamente o tempo todo, recuperar o foco passa por mais do que simplesmente tentar “prestar atenção”. É preciso também compreender o que está disputando essa atenção e como o excesso de estímulos pode interferir nas escolhas, na motivação e na capacidade de sustentar objetivos de longo prazo.
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