Há verdades no futebol que a paixão cega e que o pragmatismo institucional tenta esconder sob o tapete da gratidão. A maior delas, hoje, no CT Evaristo de Macedo, tem nome, sobrenome e 37 anos: Everton Ribeiro já se aposentou no Bahia. O problema é que o atleta não sabe, Rogério Ceni paga a conta e o Grupo City recusa-se a aceitar a realidade.
A sequência dramática de apenas duas vitórias nos últimos 15 jogos e cinco empates consecutivos não é um mero ponto fora da curva ou azar de percurso. É o sintoma escancarado de uma falência estrutural. Everton travou uma batalha heróica contra um câncer de tireoide, encarou cirurgias, tratamentos e, antes mesmo da pausa da Copa do Mundo, já convivia com um incômodo crônico na coluna. Voltou, o problema persistiu, passou por um procedimento velado pelo clube e segue sem prazo de retorno.
Fisicamente, o corpo do camisa 10 pede trégua. Taticamente, o futebol do Bahia ruiu sem ele.
O mito dos números e a armadilha do volume inútil
A análise rasa costuma se apegar aos números brutos: 69% de aproveitamento sem Everton Ribeiro desde 2024 contra 57% com ele. Uma ilusão estatística perigosa. Sem o camisa 10, o Bahia acumulou vitórias contra rivais de menor expressão, como em jogos do Baianão. No entanto, quando o sarrafo subiu no Brasileirão ou na Libertadores — como no vexame diante do O'Higgins - , a eliminação dolorida diante do Remo (4x1) ou no melancólico 0x0 contra o Vasco —, o Esquadrão virou um time comum, burocrático e sem repertório.
Há um ponto tático menos óbvio nessa dependência que a maioria ignora: Everton Ribeiro não é apenas o criador; ele é o regulador da posse. Com ele em campo como titular, o Bahia tem média de 50% de posse de bola. Sem ele, a posse sobe para 56%.
Parece um contra-senso, mas reflete com precisão a anatomia do problema. Sem Everton, o Bahia retém a bola por mais tempo simplesmente porque não sabe o que fazer com ela. É uma posse estéril, lateralizada, sem mudança de ritmo ou passe vertical de ruptura. O time gira o jogo de um lado para o outro porque faltam a clareza, a pausa e a inteligência espacial que só o veterano oferecia. Sem o "desbloqueador" de linhas, o volume de jogo vira posse inútil e o ataque morre de fome. Quem o diga Alejo Véliz.
A omissão de Cadu Santoro e a conta para Ceni
Sempre que questionado sobre a ausência de peças de criação no elenco, o diretor de futebol Cadu Santoro recorre ao clichê confortável: "Everton Ribeiro é insubstituível". É uma meia-verdade que mascara a incompetência do planejamento. Ninguém exige um jogador do mesmo patamar técnico no banco, mas é inacreditável que um clube com a saúde financeira e a rede de scouting do Grupo City não tenha previsto a inevitável queda física de um atleta de 37 anos.
Rogério Ceni virou um cientista tático tentando remendar um barco furado. Testou Luciano Juba por dentro, Caio Alexandre recuado, Jean Lucas adiantado, Michel Araújo, Rodrigo Nestor e colocou até Willian José para flutuar como meia. Nada funcionou. O elenco foi montado com volantes de transição e pontas de aceleração, mas sem nenhum outro meia quebrador de linhas e com leitura de campo.
O resultado dessa teimosia institucional é um time torto, sem repertório individual e sem alternativas coletivas. O Bahia hoje é uma equipe previsível, fácil de ser marcada, com a defesa exposta e incapaz de impor autoridade dentro da Fonte Nova.
A briga por uma vaga na Libertadores de 2027, que deveria ser o passo consolidador do projeto do Grupo City, vai se transformando em uma miragem distante. Se a diretoria continuar tratando a criação de jogadas como um luxo exclusivo de um jogador em fase final de carreira e com problemas crônicos de saúde, o Bahia continuará pagando o preço da ilusão. A aposentadoria de Everton Ribeiro é um fato físico; a incapacidade de substituí-lo é uma escolha dirigente.
Obrigado, Everton!
A Tarde
