Inteligência Artificial e Educação: ameaça ou aliada?

Você já parou para pensar que uma máquina pode corrigir redações, planejar aulas, tirar dúvidas, criar imagens, músicas e textos inteiros? A Inteligência Artificial já está dentro das salas de aula, dentro dos celulares dos seus alunos e, provavelmente, dentro das ferramentas que você usa no dia a dia sem nem perceber.

Mas afinal: o que é essa tecnologia? De onde ela veio? E o que ela significa para quem ensina e para quem aprende?

Foto: Jun Ren / Unsplash (2025)

A Inteligência Artificial não é um fenômeno recente, mas seu avanço exponencial nas últimas décadas, especialmente com o surgimento dos grandes modelos de linguagem, transformou profundamente o modo como trabalhamos, aprendemos e nos relacionamos com o conhecimento. Compreender a história, os impactos e as possibilidades da IA é uma condição indispensável para que educadores e estudantes possam usar essa tecnologia de forma crítica, ética e pedagogicamente significativa.

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Das Origens à IA Moderna

A história da IA começa muito antes do ChatGPT. Em 1950, o matemático britânico Alan Turing propôs a questão “As máquinas podem pensar?” e formulou o Teste de Turing, marco fundador da área. Em 1956, o termo “Inteligência Artificial” foi cunhado oficialmente na Conferência de Dartmouth, nos EUA, por John McCarthy.

Os primeiros modelos eram sistemas especialistas e redes neurais de camada única: programas com regras fixas definidas por humanos, capazes de resolver problemas muito específicos. Eram poderosos dentro de seu domínio, mas completamente rígidos: não aprendiam, não generalizavam e não toleravam situações fora do script programado.

Nas décadas de 1980 e 1990, com o avanço do poder computacional e o surgimento do Machine Learning (aprendizado de máquina), as IAs passaram a aprender com dados em vez de seguir regras fixas. A virada definitiva veio com o Deep Learning (aprendizado profundo), baseado em redes neurais artificiais com múltiplas camadas, que permitiu avanços significativos em reconhecimento de imagem, voz e linguagem natural.

Fonte: Autoria própria

O marco que definitivamente colocou a IA no centro do debate público foi o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, pela empresa OpenAI. O modelo foi o pioneiro do tipo LLM (Large Language Model) a atingir escala massiva de uso popular: chegou a 100 milhões de usuários em apenas 2 meses, o produto de mais rápida adoção da história da tecnologia.

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Possibilidades da IA na Educação

Compreender de onde a IA veio e como ela se expandiu é o primeiro passo. O segundo é saber o que fazer com ela. Longe de ser apenas uma ameaça à integridade acadêmica, ela oferece possibilidades pedagógicas concretas quando utilizada de forma intencional e crítica. Conheça a seguir algumas das principais frentes em que essa tecnologia já está transformando a educação.

Tutoria PersonalizadaPlataformas como Khan Academy e Duolingo já usam IA para adaptar o ritmo, o nível e o estilo de ensino para cada aluno.
Feedback Imediato e Correção AutomatizadaFerramentas de IA conseguem corrigir redações, exercícios e avaliar apresentações orais, oferecendo retorno detalhado em segundos.
Criação de Materiais DidáticosProfessores podem usar IA para gerar planos de aula, resumos e materiais adaptados para alunos com necessidades educacionais específicas.
AcessibilidadePossibilidades de transcrição, tradução, geração de audiodescrições e adaptação de textos para diferentes níveis de leitura.
Desenvolvimento do Pensamento CríticoParadoxalmente, a IA pode ser usada para ensinar a questionar a própria IA: identificar erros, alucinações, vieses e limitações dos modelos é uma competência fundamental do letramento digital do século XXI
Pesquisa e Gestão EscolarAnálise de dados de desempenho, identificação de alunos em risco de evasão, automatização de tarefas administrativas

Fotos: ilgmyzin; Feyissa, S.; Planet Volumes; Vittoriosi, E.; Azad, R. / Unsplash. Licença Unsplash, uso gratuito.  

Neste vídeo, em entrevista a plataforma Nexo Políticas Públicas, o professor titular visitante na Graduate School of Education da Universidade de Harvard, e docente titular em computação e tecnologias educacionais da USP, Seiji Isotani, aborda acerca dos impactos da inteligência artificial na educação:

Vídeo: NEXO POLÍTICAS PÚBLICAS. O que é e qual o impacto da IA aplicada à educação? YouTube, 2023.

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Riscos e desafios éticos

Nenhuma análise honesta da IA na educação pode ignorar seus desafios. O impacto foi imediato: alunos passaram a entregar trabalhos gerados por ferramentas automatizadas, professores se viram despreparados para identificar plágio algorítmico, e instituições ao redor do mundo iniciaram debates sobre políticas de uso ético dessas tecnologias.

Os problemas são variados e interligados. No plano individual, preocupa o risco de dependência acrítica dos estudantes e a consequente desvalorização do esforço cognitivo, afinal quando a IA realiza o trabalho pelo aluno, quem de fato está aprendendo? No plano estrutural, os desafios são igualmente graves: os modelos de linguagem frequentemente reproduzem vieses de raça, gênero e classe; o uso massivo dessas plataformas levanta questões sérias sobre vigilância e privacidade de dados de crianças e adolescentes; e a desigualdade de acesso à infraestrutura digital tende a aprofundar ainda mais o abismo entre escolas bem e mal equipadas.

Diante desse cenário, fica evidente que a problemática é tanto tecnológica, quanto pedagógica e ética.

Caso empírico: o experimento da Bixonimania (Universidade de Gotemburgo, 2024)

Fonte: DW Brasil (2025)

Em 2024, a pesquisadora Almira Osmanovic Thunström, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), conduziu um experimento revelador: criou uma doença completamente fictícia e publicou dois estudos falsos em um servidor de preprints, atribuídos a um pesquisador inexistente, de uma universidade inexistente, em uma cidade igualmente fictícia. Os artigos continham avisos explícitos de que eram inventados, inclusive agradecimentos à “Academia da Frota Estelar” e financiamento pela “Universidade da Sociedade do Anel e da Tríade Galáctica”.

Ainda assim, em poucas semanas, ChatGPT, Gemini, Copilot e Perplexity passaram a diagnosticar a condição como real, com Gemini descrevendo-a como “uma condição causada por excesso de luz azul” e Perplexity informando que afetava “1 em cada 90.000 indivíduos”. O mais alarmante: artigos revisados por pares publicados em revistas científicas sérias chegaram a citar os estudos falsos, entre elas a Cureus, da mesma editora da Nature.

O experimento expõe um problema estrutural: os modelos de linguagem reproduzem sem verificar. E em contextos educacionais, onde alunos usam IA para pesquisar, esse ciclo de desinformação pode gerar consequências significativamente nocivas no que tange o aprendizado, antes que qualquer correção aconteça. Dois anos após o experimento, alguns modelos começaram a levantar suspeitas sobre os estudos, evidenciando que o ciclo de correção da IA é lento demais para a velocidade de disseminação do erro.

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Conclusão

A Inteligência Artificial é o que fazemos com ela. Para educadores, o desafio não é ignorá-la nem se render a ela, mas desenvolver letramento em IA: a capacidade de compreender, avaliar criticamente e usar essas ferramentas de forma ética e pedagogicamente intencional. A escola sempre foi o espaço de mediação entre o mundo e o conhecimento, e agora esse papel é mais necessário do que nunca.

No TEDxSaoPaulo, Miguel Fernandes, fundador da Witseed, investidor de startups de IA em quatro países e Chief AI Officer da Exame, traduz em linguagem acessível o que essa transformação significa na prática:

Fonte: FERNANDES, Miguel. Como a IA vai mudar tudo (inclusive você). TEDxSaoPaulo, 2025.

Quer se aprofundar mais no tema? Confira a publicação da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) ”Inteligência Artificial na Educação: Desafios e oportunidades para o desenvolvimento sustentável”, que lista seis desafios para a educação na incorporação da inteligência artificial. Da mesma forma, o MEC (Ministério da Educação) produziu um documento orientador acerca de caminhos curriculares e práticas éticas de uso de IA nas escolas.

“O surgimento de uma IA poderosa será a melhor ou a pior coisa que já aconteceu à humanidade. Nós simplesmente ainda não sabemos qual.”

Stephen Hawking

Licença Creative Commons BY-NC-SA 4.0

Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional .

Autores:
Felipe Porto Oliveira — felipebrwork@gmail.com — Instituto Federal da Bahia (IFBA)
Vinícius de Araújo Elisbão — elisbaovinicius@gmail.com — Instituto Federal da Bahia (IFBA)

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Referências

UNESCO. Artificial intelligence in education: challenges and opportunities for sustainable development. Paris: UNESCO, 2019. (Working Papers on Education Policy, 07). Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000366994. Acesso em: 20 maio 2026.

BRASIL. Ministério da Educação. Inteligência Artificial na Educação Básica. Brasília: MEC; UNESCO, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/escolas-conectadas/documentos/ia-educacao-basica.pdf. Acesso em: 20 maio 2026.

REN, Jun. A luz do sol entra em uma sala vazia com carteiras. [S.l.]: Unsplash, 14 nov. 2025. 1 fotografia. Disponível em: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/a-luz-do-sol-entra-em-uma-sala-vazia-com-carteiras-RTFX0TQHXko. Acesso em: 14 maio 2025.

ILGMYZIN. Um objeto quadrado verde com olhos e nariz. [S.l.]: Unsplash, 17 mar. 2023. 1 fotografia. Disponível em: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/um-objeto-quadrado-verde-com-olhos-e-nariz-mSIFEZ8WW1M. Acesso em: 14 maio 2025.

FEYISSA, Solen. Uma pessoa segurando um smartphone na mão. [S.l.]: Unsplash, 28 jan. 2025. 1 fotografia. Disponível em: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/uma-pessoa-segurando-um-smartphone-na-mao-5Ib2B9MBJhQ. Acesso em: 14 maio 2025.

PLANET VOLUMES. Interface do assistente de pesquisa com IA do NotebookLM em uma tela escura. [S.l.]: Unsplash, 6 abr. 2026. 1 fotografia. Disponível em: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/interface-do-assistente-de-pesquisa-com-ia-do-notebooklm-em-uma-tela-escura-lCjRuyFrwGM. Acesso em: 14 maio 2025.

VITTORIOSI, Emiliano. Um close up de uma tela de computador com um menu sobre ele. [S.l.]: Unsplash, 1 mar. 2023. 1 fotografia. Disponível em: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/um-close-up-de-uma-tela-de-computador-com-um-menu-sobre-ele-fvxNerA8uk0. Acesso em: 14 maio 2025.

AZAD, Rubaitul. Um cubo branco com a palavra câmera sobre ele. [S.l.]: Unsplash, 5 abr. 2022. 1 fotografia. Disponível em: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/um-cubo-branco-com-a-palavra-camera-sobre-ele-uWAmS4M0RWk. Acesso em: 14 maio 2025.

TURING, A. M. Computing Machinery and Intelligence. Mind, v. 59, n. 236, p. 433–460, 1950.

NEXO POLÍTICAS PÚBLICAS. O que é e qual o impacto da inteligência artificial aplicada à educação? [S.l.]: YouTube, 1 ago. 2023. 1 vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xbkBNUewWF8. Acesso em: 14 maio 2025.

FERNANDES, Miguel. Como a IA vai mudar tudo (inclusive você). TEDxSaoPaulo. [S.l.]: YouTube, 28 maio 2025. 1 vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=C38xlWnkezQ. Acesso em: 14 maio 2025.

STOKEL-WALKER, Chris. Scientists invented a fake disease. AI told people it was real. Nature, v. 652, n. 8110, p. 559-561, 7 abr. 2026. DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-026-01100-y. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01100-y. Acesso em: 14 maio 2025.

DW Brasil. Cientistas inventaram uma doença que não existe. E a inteligência artificial agiu como se ela fosse real. Instagram Reel, 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/reel/DYGFoy6GvBf/

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