
Em meio às páginas amareladas pelo tempo, a história de Jacobina e da Chapada Diamantina ressurge com força, dignidade e memória. Em 10 de março de 1929, o jornal Correio do Sertão, então já um importante periódico do interior baiano e que permanece em atividade na cidade de Morro do Chapéu, publicou uma emocionante matéria em homenagem ao Coronel Francisco Dias Coelho, por ocasião do decenário de seu falecimento. Assinado pelo comerciante jacobinense Amado Barberino, fundador de A Primavera, o primeiro jornal impresso de Jacobina, o texto é mais do que um registro histórico: é um testemunho do respeito, da admiração e do impacto deixado por um homem que venceu as duras barreiras sociais de seu tempo.
Homem negro em um Brasil ainda marcado por profundas desigualdades raciais e sociais, Dias Coelho superou adversidades extremas e construiu, com trabalho, caráter e liderança, uma trajetória que o transformou em uma das figuras mais respeitadas de toda a Chapada Diamantina. A publicação de 1929 revela não apenas a dimensão pública de sua atuação, mas também o reconhecimento popular e institucional que atravessou gerações, consolidando seu nome na história regional.
O Jacobina 24 Horas publica agora, na íntegra, esse documento histórico de grande valor jornalístico e cultural, resgatando a memória de um personagem fundamental para a compreensão do passado de Jacobina e do sertão baiano. Ao revisitar esse texto quase centenário, reafirmamos o compromisso com a preservação da história, da identidade e das vozes que ajudaram a construir o presente.

CORREIO DO SERTÃO
Periódico hebdomadario, noticioso e litterario
Anno XII — BAHIA — Director Proprietario, Honorio de Souza Pereira — Nº 577 — BRASIL
Cidade do Morro do Chapéo, 10 de Março de 1929.
Coronel Francisco Dias Coelho
Em Jacobina é commemorado o decennio do seu fallecimento
Há precisamente dez annos, em 19 de Fevereiro de 1919, fallecia na vizinha cidade do Morro do Chapéo, cercado dos carinhos de sua desolada e extremosa familia e confortado com a dedicação dos seus numerosos amigos, o eminente cidadão Coronel Francisco Dias Coelho, de pranteada memoria.
Ainda hoje entristecidos, com o coração immerso na mais profunda amargura, lamentamos a perda de tão bondoso e estimado amigo, o homem que mais amou, trabalhou e engrandeceu o Morro do Chapéo.
Morreu Dias Coelho.
Quanto é duro e doloroso repetirmos estas palavras! Mas os homens sim, mas as suas boas obras, o seu merito incomparavel e o seu nome impolluto andarão perennes na memoria dos morrenses e dos seus innumeros amigos e admiradores.
A trajectoria da sua vida, neste mundo cheio de miserias e ingratidões, foi a mais sublime do homem pobre à nobreza de animo, limitado de sua honradez, como na actividade de sua extraordinaria capacidade commercial, administrativa e politica.
Foi uma alma grande, de um coração generoso, onde se aninhavam os mais puros sentimentos de amor ao proximo, à Patria e a Deus.
Amava verdadeiramente a paz, foi uma das suas maiores preocupações, sacrificando-se sempre em beneficio da sua terra idolatrada.
Como politico gozava de um prestigio incontestavel, sendo muito acatado e mesmo pelos seus adversarios, que reconheciam nele um caracter elevado e uma sinceridade rara.
Morro do Chapéo, actualmente entre nós, mandou celebrar, na Matriz desta cidade, solenne exequias em suffragio da alma de seu grande e inesquecivel amigo Coronel Francisco Dias Coelho.
A nave do nosso velho templo encheu-se do que a Jacobina possue de mais distincto: excellentes familias, respeitaveis cavalheiros, principaes figuras do nosso commercio e autoridades Federaes, Estaduais e Municipaes.
Viam-se condensadas para assistirem piedosos actos religiosos, officiados pelo Revmo. Vigario desta Freguezia, Padre Manoel Magalhães, auxiliado pelo seminarista Julio Farias.
A estudiosa Philharmonica “Aurora” executou durante todas as cerimonias sentidas marchas funebres.
Ao terminar a missa solemne, o Padre Magalhães produziu bella allocução, enaltecendo as peregrinas virtudes do Coronel Dias Coelho, fazendo preceder suas palavras de sinceros e justos elogios a este homem digno de exemplos, do seu verdadeiro amigo major José Olympio.
Em seguida entoou momento a oração artistica, continuando-se no centro da capella-mór, rodeado de cipres, destacando-se no plano superior o retrato do grande morto, circundado por linda capella de flores naturaes.
“Bemaventurados os que morrem nas graças de Deus” — vem sempre na memoria dos que passam a sua falta e os seus bons exemplos.
Jacobina, 19 de Fevereiro de 1929.
Amado Barberino.
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