Pai de santo é suspeito de queimar umbandistas e charutos durante rituais

O pai de santo Luiz Nascimento dos Santos, conhecido como “Luiz Curador”, é suspeito de agredir umbandistas de um terreiro de umbanda no município de Araci, a 107 km de Feira de Santana.

Segundo apuração, quatro pessoas denunciaram, no dia 30 de abril, episódios de queimaduras com ferro quente e charutos durante rituais religiosos. Elas passaram por exames periciais por lesão corporal em Serrinha, cidade na mesma região. A reportagem não conseguiu contato com a defesa do religioso.

Conforme relatos das vítimas, os umbandistas também eram mantidos confinados em quartos escuros por dias, sem acesso adequado à higiene básica. De acordo com os depoimentos, as agressões eram justificadas pelo religioso como formas de proteção divina e preparação espiritual.

Uma das vítimas, que preferiu não ser identificada, contou à equipe de reportagem que acreditava que o procedimento era necessário.

Ele falou que era preciso para se tornar um babalorixá. Tinha que ser marcado e que tinha que passar pelo quarto. Eu fui três dias e meio. (...) Foi onde surgiu a marcação com um ferro quente na brasa.

A vítima afirmou ainda que recebeu orientação para não usar medicamentos após o procedimento.

Ele disse que não era pra tomar nada, nenhum remédio e nem botar nada em cima, que era pra deixar sarar por si mesmo. Ave Maria! Dor, queimação, tudo. Porque é ferro quente, feito num raio de moto.

Segundo o homem, as marcas e a experiência provocaram abalo emocional nele e na família.

Abalou muita coisa, porque eu vejo aí todos os babalorixás e ninguém tem essa marcação de ferro. Aí me abalou muito. Abalou minha mãe, meu pai. Eles estão tudo revoltados com isso, acrescentou.

Outra vítima contou que foi marcada com um charuto durante uma oferenda relacionada a Ogum.

Ele falou que a gente ia fazer uma oferenda de Ogum, mandou a gente comprar as coisas e a gente foi e comprou. (…) Aí tinha um canto, que tinha de marcar Ogum, aí ele apontou pra mim. Na hora, eu fiquei gelada, as pernas começaram a tremer e eu disse: ‘Meu Deus, logo eu?’.

Segundo os depoimentos, algumas vítimas também afirmaram que passaram dias recolhidas em quartos do terreiro, privadas de banho e de outras necessidades básicas de higiene. Uma delas contou que precisou fazer necessidades fisiológicas em um balde.

Colocaram uma esteira lá com as folhas, a gente deitava e colocava água e a gente tomava. A gente fazia as necessidades em um baldinho lá e escovava os dentes só quando saía, contou uma das vítimas.

A reportagem teve acesso a imagens dos rituais. Em um dos vídeos, um homem aparece sendo queimado no peito com a brasa de um charuto. Outras imagens mostram duas mulheres vendadas sendo recolhidas nos quartos do terreiro.

O caso é acompanhado pela Federação de Umbanda e Cultos Afro da Região de Serrinha (Fucabase). A entidade ressalta que práticas como queimaduras com ferro quente não fazem parte das religiões de matriz africana.

Essa prática era exercida na época da escravidão, onde as pessoas eram ferroadas, submetidas a vários tipos de maus-tratos, mas nunca foi ligada à religião, afirmou Michel Barreto, presidente da Fucabase. Barreto também afirmou que a federação deve pedir o afastamento do religioso.

O secretário da Fucabase, Anailton Pereira, também repudiou as supostas agressões.

A essência da nossa religião é cuidar e amar. Toda casa de umbanda e candomblé é um hospital espiritual, é para cuidar e zelar, tanto fisicamente quanto espiritualmente, de todos que chegarem procurando ajuda ou orientação.

Em nota de esclarecimento, a Fucabase destacou ainda que marcar ou ferir pessoas com ferro quente é crime no Brasil. A entidade reconhece que o uso de ferro quente pode configurar tortura, quando há aplicação de castigo físico ou sofrimento intenso, com pena de dois a oito anos de prisão.

A federação também apontou que os atos podem ser enquadrados como lesão corporal grave ou gravíssima, principalmente nos casos em que há deformidades permanentes causadas pelas queimaduras.

A Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA) também declarou que rituais que causam queimaduras não são aceitos nos cultos das religiões de matriz africana.

Isto não faz parte de nenhum ritual das religiões afro-indígenas religiosas. Se alguém decidir ser um sacerdote e pratica algo como esse, isso não é um sacerdote religioso, isto é um agressor ou agressora, afirmou Leonel Monteiro, presidente da entidade. Ele orienta as vítimas a procurarem órgãos oficiais e reunirem provas das denúncias.

Fonte: G1 / Foto: Reprodução

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